Texto-chave
“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa…”
Malaquias 3:10
Introdução
Quando falamos sobre dízimo, algumas perguntas naturalmente surgem: O dízimo ainda é válido para o cristão? Quando ele foi instituído? Para que servia? E por que continuamos dizimando hoje?
Mais importante do que simplesmente responder se devemos ou não dizimar é compreender o princípio espiritual por trás do dízimo.
A Bíblia não apresenta o ato de contribuir como uma maneira de comprar as bênçãos de Deus. Deus não pode ser comprado, e suas bênçãos não estão à venda. O dízimo também não é uma espécie de investimento em que entregamos dez e esperamos receber cem.
O verdadeiro sentido está na fidelidade, na fé, na gratidão e no amor pela obra de Deus.
1. Quando o dízimo foi instituído?
É comum ouvir que o dízimo começou com a Lei de Moisés. Entretanto, encontramos referências ao dízimo antes da instituição da Lei.
Abraão e Melquisedeque
Em Gênesis 14:18-20, Abraão encontra Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo.
Depois de receber a bênção de Melquisedeque, Abraão entrega a ele o dízimo de tudo.
“E de tudo lhe deu Abrão o dízimo.”
Aqui temos um ponto importante: Abraão viveu antes da Lei de Moisés.
Portanto, o princípio de separar uma parte para Deus não surgiu exclusivamente com a Lei.
Jacó também fez um voto
Em Gênesis 28:20-22, Jacó faz um voto ao Senhor:
“…de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo.”
Mais uma vez, estamos diante de uma prática anterior à Lei.
Porém, precisamos tomar cuidado para não transformar esses textos em uma fórmula.
Abraão não estava ensinando que Deus poderia ser comprado. Jacó também não deveria ser interpretado como alguém fazendo uma negociação comercial com Deus.
O princípio é reconhecer que aquilo que temos vem, em última análise, de Deus.
2. O dízimo na Lei de Moisés
Com a instituição de Israel como nação, o dízimo passa a fazer parte da organização da vida religiosa e social do povo.
Um dos textos fundamentais está em Levítico:
“Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do Senhor…”
Levítico 27:30
Mas para compreender corretamente o dízimo no Antigo Testamento, precisamos perguntar:
Para que ele servia?
Uma das funções era sustentar os levitas, que não receberam uma herança territorial como as demais tribos.
Números 18:21 diz:
“E eis que aos filhos de Levi tenho dado todos os dízimos em Israel por herança, pelo ministério que executam…”
Ou seja, havia uma finalidade prática.
O dízimo fazia parte da estrutura estabelecida por Deus para que houvesse provisão para aqueles que estavam dedicados ao serviço do tabernáculo e, posteriormente, do templo.
3. O dízimo também estava relacionado aos necessitados
O sistema de dízimos de Israel não tinha apenas uma dimensão sacerdotal.
Deuteronômio 14:28-29 apresenta uma preocupação com:
- levitas;
- estrangeiros;
- órfãos;
- viúvas.
Isso revela algo muito importante:
Deus nunca quis uma religião preocupada apenas com o templo e indiferente às necessidades das pessoas.
A contribuição do povo deveria produzir cuidado, provisão e justiça.
Portanto, quando pensamos no princípio do dízimo, precisamos enxergar algo maior do que simplesmente “dar 10%”.
Precisamos enxergar uma comunidade em que aqueles que receberam de Deus também assumem responsabilidade pela manutenção da obra e pelo cuidado daqueles que precisam.
4. Por que Malaquias fala tão duramente sobre o dízimo?
Malaquias 3 é provavelmente o texto mais conhecido quando falamos sobre dízimo.
“Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais…”
Malaquias 3:8
E depois:
“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro…”
O contexto é importante.
Israel estava vivendo uma profunda crise espiritual. O problema não era simplesmente financeiro.
O povo havia se afastado de Deus e demonstrava sua infidelidade também através daquilo que entregava.
Por isso, o dízimo aparece como uma expressão da relação do povo com Deus.
E então vem a conhecida promessa:
“…e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu…”
Malaquias 3:10
É aqui que precisamos ter cuidado.
Esse texto não ensina que podemos comprar uma bênção de Deus.
Deus não está dizendo:
“Dê dinheiro e eu lhe darei dinheiro.”
O princípio é muito mais profundo:
“Confie em mim. Seja fiel. Reconheça que aquilo que você possui está debaixo da minha providência.”
5. Então o dízimo compra as bênçãos de Deus?
Não, não compra e essa talvez seja uma das coisas mais importantes que precisamos saber sobre o dízimo.
Deus não é um comerciante e não existe uma tabela onde dar 10% é igual a receber uma bênção. Se fosse assim, a fé seria substituída por uma transação financeira.
A Bíblia apresenta Deus como aquele que abençoa por graça, não porque conseguimos comprar sua ação.
Efésios 2:8 nos lembra:
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus.”
A salvação não é comprada.
A graça não é comprada.
O amor de Deus não é comprado.
A presença de Deus não é comprada.
E suas bênçãos não podem ser compradas.
Então por que dizimar se tudo isso é graça de Deus?
Porque a maneira como lidamos com nossos recursos também revela onde está o nosso coração.
Jesus disse:
“Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”
Mateus 6:21
Praticar o dízimo nos ajuda a não termos amor ao dinheiro, e nos ensina que Deus está no controle de todas as coisas, nos ensina a confiar em Deus e não em nossas mãos. Nosso coração não deve ficar nos 10%, mas sim em Deus.
6. Jesus falou sobre o dízimo?
Em Mateus 23:23, Jesus repreende os fariseus porque eles eram extremamente rigorosos com questões externas, inclusive com o dízimo, mas negligenciavam:
“…o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé.”
Jesus não elogia uma religião que cumpre regras enquanto abandona o caráter. O problema não era simplesmente dizimar, o problema era dizimar e não viver uma vida de justiça, misericórdia e fé.
Isso nos ensina algo fundamental: Podemos entregar dinheiro a Deus e ainda assim estar longe de Deus.
O valor da contribuição não substitui:
- fé;
- amor;
- misericórdia;
- obediência;
- santidade;
- justiça.
O dízimo deve fazer parte de uma vida dedicada a Deus, não substituir essa vida.
7. E o Novo Testamento ensina a contribuição?
No novo testamento é ensinado a contribuição financeira, e aqui encontramos um princípio muito forte.
Paulo escreve aos coríntios:
“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.”
2 Coríntios 9:7
Observe as palavras:
“segundo propôs no seu coração”
“não com tristeza”
“não por necessidade”
“Deus ama ao que dá com alegria.”
Isso muda completamente a maneira de enxergar a contribuição. Nós não damos porque alguém nos manipulou ou porque queremos comprar uma bênção, como também não damos por medo.
Fazemos a contribuição porque amamos a Deus e entendemos que participar da sua obra é um privilégio.
8. Mas então por que continuamos falando em 10%?
O Novo Testamento não apresenta uma passagem dizendo literalmente: “Todo cristão deve obrigatoriamente entregar exatamente 10% de sua renda.”
Por isso, não devemos fingir que existe um mandamento neotestamentário explícito nesses termos. Por outro lado, o dízimo oferece um princípio de disciplina, proporcionalidade e fidelidade que pode orientar o cristão. Dez por cento pode funcionar como uma referência prática para separar primeiramente aquilo que será dedicado à obra de Deus.
O cristão não deve pensar:
“Se eu não der 10%, Deus vai me castigar.”
Nem:
“Se eu der 10%, Deus será obrigado a me prosperar.”
A pergunta correta é:
“Como posso honrar a Deus com aquilo que Ele colocou em minhas mãos?”
9. O que o dízimo produz em nós?
Aqui chegamos ao coração do estudo.
O dízimo exercita a fé
Quando separamos uma parte daquilo que recebemos, estamos reconhecendo:
“Minha segurança não está apenas no dinheiro que tenho.”
Isso exige fé. É uma maneira prática de dizer:
“Senhor, eu confio que Tu és meu provedor.”
O dízimo combate o materialismo
Dinheiro pode facilmente ocupar o lugar que pertence a Deus, nos fazendo ser dependentes dele e não da provisão de Deus. Jesus falou muito sobre isso.
Quando contribuímos voluntariamente, estamos dizendo que o dinheiro é um recurso que administramos, não um senhor ao qual servimos.
O dízimo ensina gratidão
Dizimar começa com reconhecimento. Antes de perguntar “Quanto vou dar?”, podemos perguntar “De onde veio aquilo que tenho?”
Tiago 1:17 declara:
“Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto…”
A contribuição se torna então uma resposta de gratidão, e deixa de ser uma obrigação da parte do fiel.
O dízimo demonstra amor pela obra
A igreja possui necessidades reais. Existem despesas, manutenção, evangelização, materiais, assistência e muitas outras responsabilidades e quando contribuímos, estamos participando dessas coisas. Talvez eu não esteja pregando naquele dia, talvez eu não esteja ministrando louvor, talvez eu não esteja evangelizando naquela ocasião, mas posso contribuir para que a obra continue acontecendo.
Meu recurso também pode servir ao Reino.
Eis aqui um dos maiores motivos que ainda dizimamos, a maioria das igrejas são humildes, muitas não tem terreno ou prédio próprios e precisam pagar aluguel. Não são todos os pastores que vivem da igreja, como muitos dizem nas redes sociais, a realidade é que os pastores tem seu próprio emprego e muitos deles usam da sua própria renda para ajudar a manter os trabalhos funcionando.
10. E quais são as bênçãos do dízimo?
Precisamos falar sobre isso sem cair na teologia da prosperidade. A maior bênção não é necessariamente receber dinheiro de volta, ela pode estar no próprio processo de aprender a confiar em Deus.
O dízimo pode produzir em nós:
- disciplina financeira;
- generosidade;
- gratidão;
- desapego;
- fé;
- responsabilidade;
- alegria em contribuir;
- participação na obra de Deus.
E Deus pode, sim, prover materialmente de diversas maneiras. A Bíblia ensina a confiar na providência divina, mas não podemos estabelecer uma relação matemática:
“Eu dei R$100, então Deus precisa me devolver R$1.000.”
Isso transforma Deus em instrumento de enriquecimento e a nossa esperança não está no dinheiro que Deus pode nos dar. Nossa esperança está no próprio Deus.
11. Dízimo não é pagamento; é culto
Essa talvez seja uma das melhores conclusões para este estudo. Quando entregamos nosso dízimo, não estamos pagando uma conta com Deus, nós estamos adorando-o. A contribuição faz parte da nossa resposta a Deus e, por isso, ela deve ser feita com fé + gratidão + amor + alegria + responsabilidade.
O dinheiro que entregamos deixa de ser simplesmente dinheiro e passa a representar:
“Senhor, reconheço que tudo pertence a Ti.”
Conclusão
Então, por que ainda dizimamos?
Não porque estamos comprando Deus;
Não porque estamos comprando bênçãos;
Não porque temos medo de Deus;
Não porque queremos enriquecer.
Dizimamos porque entendemos que Deus é o dono de todas as coisas e nós somos administradores daquilo que recebemos.
O dízimo nos ensina a confiar, a agradeçer, a repartir, nos ensina a combater o domínio do dinheiro sobre o nosso coração e nos permite participar concretamente da obra de Deus.
Talvez a pergunta mais importante não seja “Deus precisa do meu dinheiro?”. Deus é soberano e não depende do nosso dinheiro. A pergunta é “Eu reconheço Deus como Senhor também sobre aquilo que tenho?”. Porque o verdadeiro propósito da contribuição não é mudar Deus mas sim permitir que Deus transforme o nosso coração.
Para a sua reflexão
- O que Abraão nos ensina sobre o dízimo antes da Lei?
- Qual era a função do dízimo em Israel?
- Por que Malaquias 3 não deve ser interpretado como uma fórmula de prosperidade?
- O que Jesus criticou nos fariseus em Mateus 23:23?
- Qual a diferença entre dar por obrigação e dar por fé?
- O dinheiro pode revelar a condição espiritual do nosso coração? Por quê?
- Se Deus não precisa do nosso dinheiro, por que Ele se importa com a maneira como contribuímos?
“Nós não dizimamos para comprar as bênçãos de Deus; dizimamos porque já reconhecemos Deus como Senhor daquilo que temos.”
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